Apostila de Kung Fu Imprimir E-mail
Por Administrator   
02 de julho de 2006

 

 

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O que é "Kung Fu"? 

Como surgiu o Kung Fu?

O conteúdo do Kung Fu Shao Lin.

Estilo Garra de Águia.

Kuan Kun - O Santo Protetor das Academias.

Juramentos do Kung Fu Garra de Águia.

Tchen Sal - a Saudação do Kung Fu. 

Tchen Moou I - O uniforme de Kung Fu.

As batidas de mãos nos Katis e Chutes.

Histórico do uso do Bastão.

A importância do treinamento ao ar livre.

Treinamento dos Katis e importância do Toi Tcha em Kung Fu.

 

                                              I - O que é "Kung Fu "?

 

Antigamente, Kung Fu era uma expressão que no dialeto cantonês, queria dizer " trabalho" ou " jornada de trabalho", dependendo da forma que era encontrada no texto. Hoje em dia, ela é mundialmente conhecida, mas, na realidade, esta palavra nada tem a ver com técnicas de combate. Fora do Cantão ( região do Sul da China ) não era conhecida, porque não aparecia em gramáticas. A expressão gramaticalmente correta para designar arte marcial é WU SHU, originária do mandarim ( vale lembrar que após 1945, Mao Tsé Tung designou o mandarim como língua oficial chinesa ).

Alguém poderia perguntar: por que então foi escolhida a palavra "Kung Fu" e não "Wu Shu" para representar Arte Marcial ? Muito simples: os primeiros imigrantes chineses eram de Cantão, que como já dissemos, é uma região ao sul da China e litorânea ( como Santos, por exemplo ). O acesso ao mar por estes imigrantes era mais fácil que para outras regiãos da China. Estas pessoas espalharam-se por todo o mundo: Europa, África, Oceania e Américas, para tentar ganhar a vida e ter melhores condições de sobrevivência do que a que possuíam em seu país de orígem.

Sendo um povo de costumes diferentes, no início, para eles, não era fácil comunicar-se com outras pessoas, principalmente porque o idioma chinês era complicado e só eles mesmos compreendiam. Na sua vida diária como cozinheiros, lavradores e outras profissões, sempre reservavam um tempo de lazer para treinar os movimentos de katis e lutas que aprenderam na China. Por outras vezes, eram perseguídos por serem de cor amarela e provocados para brigas. Sabe-se que a estrutura física do chinês é franzina (fraca). São pessoas geralmente pequenas e, na maioria das vezes, ganhavam lutas com homens duas ou três vezes maiores do que eles. Evidentemente, isso causava surpresa aos habitantes locais de qualquer país. Que técnica era essa que um homem tão pequenino pode bater com facilidade em qualquer grandalhão? Na sua curiosidade, as pessoas indagavam aos chineses como se chamava essa técnica, essa "coisa estranha"que eles dominavam tão bem. Aí começava a confusão de idiomas. Os chineses queriam explicar que, para saber tais movimentos, era necessário treinar muito, era preciso dedicar algumas horas por dia a essas técnicas, enfim, que era "um trabalho danado" conseguir tal condição física para luta. Então, como não tinham vocabulário suficiente para conversar, respondiam simplesmente: "É KUNG FU" (o que significava: "trabalho intenso para ficar bom nisso"). E paravam por aí. Por outro lado, as pessoas passaram a interpretar que aqueles chineses cantoneses praticavam uma luta de nome Kung Fu. E foi assim que se espalhou pelo mundo uma palavra em cantonês, ( quando hoje, na China, fala-se o Mandarim, oficialmente ) graças aqueles primeiros imigrantes do Sul.

                                                                     

II - Como surgiu o Kung Fu ?

 

 

Esta é uma pergunta que ouvimos com certa freqüência nas academias e para a qual não se possui uma resposta precisa. Há várias opiniões a respeito da origem do Kung Fu. Uma delas defende a idéia de que esta arte marcial foi trazida para a China por Po Ti Ta Mo ( Bo-Dhi-Dhar-Ma ) monge budista da Índia ( 28º patriarca do Budismo Indiano e 1º patriarca do Budismo Chinês ). Dizem que, por volta de 527 d.C.. Bodhidharma trouxe uma arte marcial antiqüíssima, originária da Índia e ensinou-a conjuntamente com a doutrina do Budismo, no Templo de Shao Lin.

Outra opinião, e provavelmente a mais correta, diz que dificilmente se saberá de onde vem o Kung Fu, porque o Imperador Tchon Tchi Woon queria ser o primeiro imperador da história da China e mandou queimar a maioria dos registros e documentos históricos antecedentes a ele. Monumentos e estátuas também foram destruídos, para que a cultura chinesa começasse a partir deste imperador (evidentemente, nem tudo foi destruído e muitos conseguiram esconder um ou outro documento importante ).

Em alguns livros encontramos referência ao Kung Fu do ano 2.674 a .C., onde tropas do Imperador Woon Tai ( chamado, também, de Imperador Amarelo ), tiveram que conter uma rebalião de senhores feudais, que queriam dividir a China entre si. As tropas do Imperador venceram com uma técnica guerreira, conhecida como Wu Shu.

De qualquer forma, devido à enorme quantidade de opiniões a esse respeito, não podemos precisar exatamente a origem do Kung Fu. Mesmo assim, é importante que os praticantes desta arte marcial conheçam as opiniões a respeito.

 

 

III - O conteúdo do Kung Fu Shao Lin:

 

 

Para se treinar Kung Fu, não basta apenas imitar os movimentos e as posições. É necessário sentir o que se faz, ter vivência de luta e compreender a verdadeira essência desta arte marcial.

Antigamente, o sistema chinês era bastante rígido e os mestres agiam com dureza. Ao demonstrar as técnicas, golpeavam realmente os alunos, para que aprendessem, através da prática e não apenas da teoria, pois diziam que muitas coisas não se aprenderiam somente ouvindo-se explicações. Segundo este método, era necessário sentir para aprender. Muitas vezes, é difícil compreender esse aspecto, mas, com o passar do tempo, o entendimento vem naturalmente. Com a continuação do treinamento, vamos adquirindo o conhecimento e a compreensão de tudo aquilo que antes não víamos, ou não conseguíamos entender. Mesmo o aluno passando a instrutor, o seu processo de aprendizagem não termina e a cada dia compreende, com mais clareza, todas essas coisas cujo conhecimento vai adquirindo ao longo dos anos.

Não só os leigos, como também muitos que se iniciam na prática do Kung Fu, nada sabem desta arte marcial, ou tem da mesma, uma imagem falsa ou distorcida. Aceitam, em geral, sem restrições, a imagem criada e transmitida pelo cinema, considerando os ATORES que conhecem, os maiores lutadores de Kung Fu. Entretanta, não pode esquecer que no cinema muita coisa é fantasia. As lutas não são reais, mas combinadas e os efeitos técnicos são criados pelos diretores com a intensão de apresentar o Kung Fu como algo impossível, secreto, misterioso, a fim de atender a interesses comerciais.

A realidade, porém, é muito diferente. Nem mesmo um campeão mundial poderia se considerar o melhor dentro do Kung Fu, pois este não é constituído apenas de luta, apresentando cinco componentes fundamentais:

 

1 - Prepara Físico:

 

O Kung Fu, através dos exercícios físicos bem dosados, respeitando as diferenças e necessidades individuais, auxilia na obtenção e conservação de excelentes condições de saúde.

Algumas pessoas perguntam: "Por que treinar Kung Fu se não possuo nenhuma inclinação para a luta"? Ora, ainda que se considere apenas este primeiro aspecto - o físico - a prática do Kung Fu só poderá lhes oferecer vantagens. Os esportes em geral produzem resultados, no tocante ao preparo físico, a curto, médio, e a longo prazo. Entretanto, será no futuro, quando tiver mais idade, que o praticante poderá avaliar os benefícios obtidos.

 

2 - Arte:

 

Esse aspecto diz respeito à beleza, à harmonia e ao equilíbrio estético das técnicas e dos movimentos. Como todo o artista que se orgulha de sua arte, também o praticante de Kung Fu se dedica ao aprimoramento da sua técnica e sensibilidade, orgulhando-se de demonstrar ao público toda a beleza que há em seu estilo.

 

3 - Luta:

 

a ) - Compreender a luta combinada, sob duas formas:

Toi Tcha ( destinada a levar o praticante a assimilar e incorporar as técnicas de ataque, defesa e contra-ataque e a desenvolver-lhe os reflexos );

            Aplicações ( mais vinculadas à utilização prática das técnicas aprendidas com os Katis; também desenvolvem os reflexos ).

b ) - Compreende o combate livre, sob duas formas:

            Luta de ringue ( obedecendo regulamentos );

            Luta real ( ou briga de rua ).

Durante o treinamento de luta, mais do que a beleza e a harmonia dos movimentos, o importante é utilizar corretamente a técnica assimilada, é ter reflexos prontos, rapidez, firmeza e agilidade para vencer o adversário.

 

4 - Pesquisa:

 

Implica num minucioso trabalho de estudos, no sentido do aperfeiçoamento não só das técnicas e arte e luta ( e de sua aplicação ) mas também dos exercícios utilizados para a obtenção do preparo físico, visando o desenvolvimento harmonioso e integral dos praticantes, levando sempre em conta as individualidades de cada um.

É o estudo do Kung Fu do ponto de vista global; é a tentativa de aprofundar, cada vez mais, os conhecimentos adquiridos, objetivando, fornecer meios para o desenvolvimento dos aspectos anteriormente abordados.

 

5 - Filosofia :

 

Constutui a base do Kung Fu, os alicerces que deverão sustentar todo o edificio que será, aos poucos, construído. É a procura da compreensão de si próprio e de todas as coisas. É o aprendizado incessante, que nunca se interrompe e nunca termina.

É necessário ampliar a visão de cada dia, para não permanecer preso às próprias limitações, como um embrião encerrado num ovo. Cada qual, individualmente, deve procurar progredir.

O Kung Fu não tem segredos, nem se propõe a realizar o impossível. Apesar de sua antigüidade, é um esporte bastante atual, pois não estagnou no decurso dos séculos.

Dentro do Kung Fu nada é inútil. Tudo o que se aprende, tem aplicação prática. O praticante, porém, precisa começar do básico e treinar até adquirir firmeza, assim como a criança parte da alfabetização para chegar, um dia, à universidade. A aprendizagem se realiza passo a passo e requer autodisciplina e força de vontade. As matérias básicas devem ser estudadas, todas elas, até que se chegue a um estágio que permita tratar de especializações. O mesmo ocorre com o Kung Fu. Os degraus devem ser galgados um a um, sem pressa, mas com determinação. Para cada qual existe um caminho. É preciso porém trabalhar muito e se preparar para adquirir condições de escolha. Chegando o momento, deve-se escolher o caminho desejado e prosseguir, então, no rumo traçado. Seu mestre pode indicar os caminhos, mostrando como andar em cada um. Mas a escolha é pessoal. É um problema que cabe a cada um resolver. E terá que resolver sozinho, sem ajuda.

 

Monges do templo de Shaolin e Mestre Li Wing Kay

                                    

 

                                   IV Estilo Garra de Águia

 

 

A - Árvore Genealógica do Estilo Garra de Águia:

 

Fundador

Mestre Ó Fei

|

1a. Geração

Monge Lai Tchin

|

2a. Geração

Monge Tao Tchai

|

3a. Geração

Monge Fa Sem

|

4a. Geração

Mestre Lau Si

_____________________5a. Geração____________________

              |                                                                                                               I

Mestre Kay Sam   Mestre Kay Sei   Mestre Lau Seng Yao  Mestre Lau Tat Fun

______|

                                                         |

_________6a. Geração_________

     |                                                      |

Mestre Chan Tii Tchen                       Mestre Lau Kay Man

                                ____________|

                                                                             |

7a.Geração

Mestre Lau Fat Moun

|

__________________________8a. Geração_________________________

|                                                                                                                  |

M.Lau Chi Chun   M.Lily Lau   M.James Chi K.Lau   M.Li Wing Kay   M.Gini M.W.Lau   M.Lau Mang Ha

( U.S.A )            ( Hong Kong )        ( Taiwan )                      ( Brasil )           ( U.S.A )        ( U.S.A )

 B - Histórico da Garra de Águia:

 

Cada estilo, dentro do Kung Fu, possui sua árvore genealógica. Esta árvore genealógica registra a história de cada estilo em particular e quem foi seu fundador.

É importante que cada professor e instrutor conheça a origem do estilo que pratica, para poder ensiná-lo na sua academia. Não merece crédito aquele que ignora a genealogia e a história do estilo a que se dedica, como não o mereceria quem afirmasse pertencer a determinada família e não soubesse informar, sequer, o nome de seus pais e avós.

Vale lembrar que o Kung Fu possui uma hierarquia ( série contínua de graus ou escalões, em ordem crescente ou decrescente ) quase militar. Tudo é organizado e documentado e cada documento deve conter o carimbo e a assinatura de quem o expediu. Desta forma quando um mestre eleva um discípulo à categoria de professor e o autoriza a dar aulas, fornece-lhe um documento comprobatório. A falta deste documento, para um professor cujo mestre esteja presente,  significa que ele mesmo se atribui o título. Um título que seu mestre não lhe negaria, caso o julgasse capacitado a merecê-lo. Há estilos que não conferem diplomas. Mas na falta de um diploma, deve existir uma autorização ou um documento correspondente, assinado por quem tenha competência e qualificação para fazê-lo.

A história de nosso estilo começa com um menino órfão de pai, criado pela mãe viúva. Seu nome era Ó Fei.

Quando pequeno, Ó Fei tinha um padrinho e professor chamado Chow, com o qual estudava caligrafia, literatura, matemática, desenho, enfim, fazia os seus estudos em geral. Este professor ( Chow ), foi aluno dos monges do Templo de Shao Lin e, além de outras coisas, aprendeu com eles diversas técnicas diferentes de Kung Fu e, dentre elas, os movimentos da Águia. Naquela época, na China, não haviam escolas primárias. As crianças aprendiam as primeiras coisas básicas com os pais. Depois, era contratado um professor particular, que lhes ensinaria todas as matérias em geral. Ó Fei, começou seus estudos com a mãe e terminou-os com Chow. Além das diversas disciplinas que aprendeu, Chow ensinou-lhe também as mesmas técnicas da Águia que havia aprendido dos monges de Shao Lin. Por este motivo podemos afirmar que o estilo da Garra de Águia, veio, embora indiretamente, do Templo de Shao Lin. Dizemos indiretamente, porque quem criou e fundou oficialmente o estilo que hoje praticamos, foi Ó Fei. Poderíamos dizer, portanto, que Ó Fei "aperfeiçoou"o estilo da Garra de Águia.

Já adulto, no ano de 1.123d.C., Ó Fei tornou-se um general do exército chinês e treinava seus oficiais na prática do Kung Fu, para que estes, por sua vez, ensinassem a todos os seus soldados.

Nas batalhas que Ó Fei participou, sempre foi bem sucedido, vencendo todas. Era um excelente guerreiro e muito inteligente, disciplinado e justo.

Um homem que hoje chamaríamos de "traidor", de nome Tchan Kui era o Conselheiro da Corte. Este, não suportando a fama de Ó Fei, resolveu prejudicá-lo com calúnias perante o Rei Sung. E Sung, por sua vez, era um soberano jovem, inseguro e fraco, que acreditava em tudo o que os outros diziam. Sem procurar saber se o que ouvira era verdade ou não, mandou chamar Ó Fei nos campos de batalha. Como estavam em plena guerra ( o que, naquela época, era comum ), Rei Sung precisou chamar Ó Fei doze vezes porque o general estava lutando. Quando este chegou ao palácio, com seu filho Ó Wan ( que o acompanhou nos campos de batalha ) e seus soldados, de nada desconfiou. Sem saber porque, foram aprisionados pelos guardas do Rei. Levados à presença de Sung, ficaram sabendo dos acontecimentos e Ó Fei disse que tudo aquilo não passava de calúnias criadas por Tchan Kui. Sung, influenciado pelas más intenções de Tchan Kui, sentenciou todos à morte. Isso revoltou os soldados de Ó Fei, que lhe propuseram acabar com as tropas do Rei, para se livrarem. Realmente, utilizando-se das técnicas de Kung Fu Garra de Águia que conheciam, seria fácil fazê-lo. Mas Ó Fei acalmou os soldados e disse que, mesmo que o rei estivesse errado, eles pertenciam ao exército e deveriam dar um bom exemplo. Pediu aos soldados que respeitassem a vontade e a ordem do Rei. Desta forma, foi assassinado, aproximadamente em 1.143 d.C., junto com sua família injustamente.

Ó Fei dava aulas apenas no exército. Após a sua morte, seus alunos passaram a ser perseguidos pelo exército do Rei, ( influenciados por Tchan Kui ) e eram obrigados a esconder-se, para não serem pegos. Sendo assim, o estilo da Garra de Águia desapareceu por algum tempo. Todos que conheciam o estilo, nada podiam falar, para não serem mortos.

Alguns anos depois, apareceu um monge de nome Lai Tchin ( não temos registro de onde veio ) que afirmou ser a "continuação"de Ó Fei. Este monge ensinou outro, de nome Tao Tchai. Até esta época, o estilo usava mais técnicas de garra. Tao Tchai, por sua vez, ensinou o monge Fa Sem. Fa Sen acrescentou mais técnicas de pernas e saltos mortais, deixando, desta forma, o estilo da Garra de Águia muito mais completo. Foi o primeiro monge a ensinar fora do Templo de Shao Lin, após a morte de Ó Fei.

Sob o regime de outro império, Fa Sen começou a ensinar mestre Lau Si Chang, que era natural de Hon Wen ( norte da China ). Este foi um dos maiores divulgadores do estilo na China, porque também era um general do exército. Ficou diretamente na capital ( Pequim ) ao lado do Rei, do qual recebia ordens. Lau Si Chang ensinou dois sobrinhos: Lau Tat Fun ( Pequim ) e Lau Seng Yao ( Hon Wen ). Ao mesmo tempo, Lau Si Chang ensinou também dois irmãos: Kay  Sam e Kay Sei ( ambos de Pequim ). Desta geração de quatro alunos, a divulgação da Garra de Águia só teve continuação com mestre Lau Seng Yao, porque os outros três não ensinaram ninguém.

Por sua vez, mestre Lau Seng Yao, sobrinho de Lau Si Chang, ensinou seu próprio filho Lau Kay Man ( de Hon Wen ) e seu sobrinho Chan Tii Tchen. Nessa época, ao sul da China, foi organizada a 1a. Federeção de Kung Fu. Quem cuidava da matriz de Garra de Águia era o mestre Lau Kay Man, filho de Lau Seng Yao e, como não poderia deixar a matriz, mandou para o sul da China Chan Tii Tchen, seu primo. Chan Tii Tchen foi o primeiro divulgador do estilo Garra de Águia ao Sul da China. Com isto, mestre Chan Tii Tchen tornou-se muito famoso na região. Todas as Federações o convidavam para dar aulas, mas sozinho ele não poderia fazê-lo. Desta forma, Chan Tii Tchen pediu ajuda para a matriz e mestre Lau Kay Man enviou seu sobrinho Lau Fat Moun para ajudá-lo na Federação do Sul. Ele foi, mas, nessa época "estourou" a 2a. Guerra Mundial e mestre Lau Fat Moun deixou o sul da China e foi para Hong Kong, tentando evitar os horrores da guerra. Uma vez em Hong Kong, fez tanto sucesso, que chegou ao ponto de ser respeitado como o "Rei da Águia"!

Mestre Lau Fat Moun ensinou o estilo a seus filhos: mestre Lau Chi Chun, mestre Lau Mang Ha, mestra Gini M.W.Lau ( os três são os atuais representantes nos Estados Unidos da América ); mestra Lily Lau (representante em Hong Kong ) e mestre James C.K.Lau ( representante na Ilha de Formosa - Taiwan ).

                            

V - Kuan Kun - O Santo Protetor das Academias:

 

 

Kuan Kun é uma lenda. Seu sobrenome era Kuan e seu nome - Wan Cheen.

Kun, na China, significa "muito respeitado". Após "rei", esta era a palavra de categoria mais alta em termos de classe. Daí o nome Kuan Kun, em cantonês.

Tin Koh-Siy Doi é a época à qual nos referimos. Ao "pé da letra"significa "tempo de estado de guerra".

A lenda conta que Kuan Kun veio ao mundo como um santo. Sua mãe, certa vez, sonhou que algo parecido com um sol entrou em sua barriga e, a partir daí, sentiu-se grávida.

Ao nascer, Kuan Kun chegou dentro de um ovo vermelho como sangue. Seu pai pertencia ao exército, com um cargo de alto escalão. Ao ver o ovo, ficou enfurecido. Achava que "aquilo" não podia ser gente, que não era coisa certa, que talvez fosse até um animal... Sem pensar, usou uma faca para matar o ovo. E este, como todo ovo, deveria ser chocado antes de Kuan Kun nascer. Entretanto, como ainda não era o tempo certo para ele sair e seu pai cortara o ovo, o menino não nasceu comum: seu corpo era normal, como o de qualquer criança, mas o rosto era vermelho - completamente vermelho.

Já adulto, conta-se que sempre foi uma pessoa correta, que não admitia maus procedimentos. Nunca praticou más ações, porém chegava a ser bruto para reprimir pessoas ruins. Atingiu o cargo de general no exército e era excelente lutador. Nunca perdeu uma luta.

Sua arma, criada por ele mesmo e sua especialidade, era o Kuan Tou. A original pesava, mais ou menos, cincoenta quilos.

Corajoso e de espírito puro, gostava de disciplina e era muito inteligente.

Por tudo isso, os lutadores chineses em geral acreditam que ele proteja as academias e todos aqueles que lhe dedicam o respeito que merece. Contudo, na China, não são apenas os lutadores que convidam o espírito de Kuan Kun para protegê-los: é comum ver seu quadro em estabelecimentos comerciais, delegacias, pastelarias, etc. Inclusive, aqui no Brasil, muitos chineses comerciantes mantém esta tradição.

A Kuan Kun, sendo um santo oriental, são lhe dedicadas festas, incensos, oferendas de alimentos, presentes, enfim, tudo conforme manda a tradição. Quando o seu espírito é invocado, acende-se uma luzinha vermelha, que significa que o santo está presente, a qual não se apagará mais. Acredita-se que, se esta luzinha se apagar, o espirito irá embora. O fato da luz ser vermelha é em homenagem à cor de seu rosto e é considerada como o "espirito do sol"( o próprio Kuan Kun ).

Conta a lenda que este santo morreu de velhice e, após a sua morte, aparecia constantemente a seus soldados. Daí a ser considerado o santo protetor dos lutadores.

Em uma de suas aparições, Kuan Kun disse: "disciplina, coragem e espírito limpo, são essenciais ao verdadeiro homem".                                        

               

VI - Juramentos do Kung Fu Garra de águia :

 

 

Assim como nas demais artes marciais, o Kung Fu também possui o seu juramento, que deve ser conhecido, decorado e respeitado por todos os praticantes desta modalidade esportiva. São nove, a saber:

 

1º - Eu me comprometo a treinar o corpo e o espírito para a paz;

2º - Eu me compromete a reverenciar nossos ancestrais e a respeitar mestres, professores e colegas;

3º - Eu me comprometo a não ser falso, e a seguir o caminho da verdade;

4º - Eu me comprometo a persistir no aperfeiçoamento físico, mental e espiritual;

5º - Eu me comprometo a ser paciente e humilde, galgando um a um os degraus do conhecimento;

6º - Eu me comprometo a contribuir para que o nosso meio não ofereça abrigo aos mal-intencionados;

7º - Eu me comprometo a respeitar as demais filosofias e artes marciais;

8º - Eu me comprometo a zelar pelo respeito devido ao Kung Fu;

9º - Eu me comprometo a ser o exemplo vivo da filosofia e da ética dos mestres.

 

 

VII - Tchen Sal - A saudação do Kung Fu:

 

 

Cada país possui uma maneira própria e peculiar de saudar ou cunprimentar o seu semelhante. As diferenças de um para o outro país se refletem, inclusive, nas próprias atitudes das pessoas.

Os ocidentais apertam-se as mãos ( embora não se possa provar, acredita-se que o aperto de mão originou-se do povo inglês, onde procurava-se mostrar a mão direita vazia, desarmada, surgindo, desta forma, o aperto de mão ).

Os japoneses se curvam ( oferecendo sua vida em sinal de confiança - pois sua cabeça poderia ser cortada ).

Nas artes marciais, em particular, essas atitudes tomam aspectos diversos ( os japoneses continuam se curvando ).

A China possui uma tradição histórica que remonta para mais de 3.000 anos. As formas de lutas se apresentam sob mais de 180 estilos diferentes e cada estilo possui uma maneira própria de cumprimentar.

Na própria China existem muitas formas de saudação, formas estas que vão depender do local, dos costumes e do próprio estilo de luta considerado. Basicamente, a saudação pode ser dividida em dois tipos:

- cumprimento formal, regido pelas regras da boa educação;

- cumprimento de luta.

A mão esquerda é a mão educada e a mão direita é a mão agressiva. Se a mão esquerda está cobrindo a direita e os pés estão juntos ( ou separados ), trata-se de uma saudação educada. Se a mão esquerda estiver aberta, e a mão direita fechada, com o pé esquerdo adiantado, temos uma saudação que, invariavelmente, precede uma atitude agressiva.

 

 

VIII - Tchen Moou I - O uniforme de Kung Fu:

 

 

Existem, no mundo todo, inúmeras modalidades de luta, cada uma com características próprias. Logicamente, os aparelhos utilizados para treinamento, bem  como os trajes adotados para a prática de lutas, devem atender as suas peculiaridades específicas. Daí decorre o fato de cada modalidade adotar um uniforme próprio pata treinamento.

O Kung Fu vem, há milênios, integrando o patrimônio cultural da China. Através dos tempos , sofreu mudanças decorrentes das modificações culturais havidas. Entretanto, ao longo da história, o que se  conservou  praticamente imutável foi a roupa adotada para a prática do Kung Fu. Realmente, as alterações sofridas pelo traje do Kung Fu foram mínimas, como mínimas são as diferenças determinadas pela diversidade de estilos. O padrão é único, só o que varia são os detalhes.

O Tchen Moou I preto ( ou branco ) na China é utilizado nos dias de muito frio. Normalmente, nas academias, os alunos vestem-se como nós aqui no Brasil: camiseta, calça, faixa e sapatilha. A faixa, inclusive, é utilizada com o fim único de "segurar"a calça, e não para definir graduações, como nas artes marciais japonesas e coreanas.

Ao falarmos de Tchen Moou I, não queremos dizer que o mesmo é imprescindível para a prática do Kung Fu. Sua utilização e seu uso são uma questão de tradição, não sendo obrigatório que o aluno o adquira. Porém, todo aquele que ministra aulas ( professor ou instrutor ) deverá estar uniformizado com o Tchen Moou I, por uma questão de disciplina, organização e bom exemplo aos demais.

No estilo Garra de Águia, o uniforme obrigatório para alunos é calça preta de Kung Fu, camiseta com o símbolo da academia, sapatilha preta, meia branca e faixa. Gostaríamos de lembrar que, nos costumes chineses, a faixa branca ( ou qualquer coisa branca sobre o uniforme ) significa "luto pela morte do mestre, ou alguém da família do mestre".

Concluíndo, no uniforme utilizado pelas diferentes academias, o que importa realmente é a ordem, o asseio, o conforto, a liberdade de movimento e a padronização do mesmo.

 

 

IX - As batidas de mãos nos Katis e Chutes:

 

 

Sempre que assistimos a um treino ou a uma demonstração de Kung Fu, podemos observar a execução de movimentos que encerram batidas de mãos.

As pessoas, normalmente, não atinam com a razão dessas batidas de mãos e mesmo muitos praticantes de Kung Fu não compreendem sua finalidade nem sabem como utilizá-las.

Há quem pense que tais movimentos são adotados por motivos de ordem estética. Outros acreditam que os mesmos se destinam a impressionar a assistência, em razão do barulho que produzem. Mas sua utilização se prende a motivos muito mais sóbrios.

Na China, todos os estilos que dão maior ênfase ao uso das pernas e pés consideram da maior importância a prática das batidas de mãos, cuja presença em cada Kati é quase obrigatória. Isso porque tais movimentos auxiliam o lutador a adquirir prática de defesa, reflexos e equilíbrio, a tirar a atenção do adversário, a endurecer mãos e pés, bem como a aumentar a rapidez, a agilidade e o sentido. Essa é a razão da importância que lhes é atribuída.

Os praticantes, no início, sempre encontram alguma dificuldade em executar com rapidez e correção tais movimentos. Entretanto, com o tempo, acabam por sentir e aprender sua essência e sua utilização.

 

 

X - Histórico do uso do Bastão:

 

 

Em lutas chinesas, existem vários tipos de armas. Dentre as mais comuns destacam-se: o facão, a espada, a lança e o bastão.

O facão e a espada são denominadas armas curtas de fácil manuseio e, conseqüêntemente, de fácil transporte. Porém, numa emergência, não são fáceis de se encontrar na rua.

A lança e o bastão são denominadas armas longas, difíceis de transportar, nas a facilidade com que as mesmas são encontradas na rua é maior ( cabo de vassoura, bambú, pedaço de ferro, cano, etc..., onde se pode adaptar as técnicas de luta ).

Devido a isto, a lança e o bastão são mais comuns e conhecidos. Há até um ditado chinês que diz: "O Bastão é um professor, os Facões são como os pais", com isso vemos a importância dessas armas na China ( porque pais e professores são as pessoas mais importantes para os chineses ).

Antigamente, usava-se a lança em combates. No decorrer dos anos até chegarmos nos tempos Shao Lin, os monges budistas perceberam o perigo da mesma, considerando-a arma assassina, não conveniente para os combates sem montaria. Desta forma, veio então a idéia de se tirar a ponta da lança, tornando-a menos perigosa, surgindo, assim, o bastão.

Há muitos tipos de bastões: madeira, ferro e aço. Existem, também, várias formas: longa, curta, três partes ( Sam Tin Kuan ), duas partes ( Leon Tin Kuan ) etc...

O mais usado, recentemente, é o comprido de madeira, mas o uso do mesmo também depende do peso e da altura de quem o manuseia.

O bastão pode ser usado de ambos os lados, ou de um só. Para o uso do bastão de um lado só, o mais indicado é o longo ( de 2 metros ). Esse tipo de bastão manuseia-se mais ou menos como a lança, por ser mais pesado e mais violento. Seu uso é difícil, por que requer um espaço amplo, e seu transporte, inconveniente.

Para o uso do bastão de ambos os lados, o mais indicado é o curto, dependendo da altura de quem o manusear ( devendo o mesmo ser equivalente à altura da pessoa ). Esse tipo de Bastão é usado com maior agilidade e liberdade de movimento, é de fácil transporte e não requer espaço amplo.

No estilo Garra de Águia, são usados todos os tipos de bastões, incluindo o Tai-Con-Tii ( bastão longo ) e o Tchai-Mei ( bastão curto - também o mais usado ).

O bastão é ensinado inicialmente sob a forma de um básico e, a partir daí, aplicado como luta.

 

                           XI - A importância do treinamento ao ar livre:

 

 

Em nossa época, a existência do ser humano transcorre quase inteiramente em ambientes fechados: o período pré-natal, o início da vida nas maternidades, a infância, a adolescência e a idade adulta em casa, nas escolas e nos locais de trabalho. Até mesmo os momentos de lazer e diversão encenam os indivíduos entre quatro paredes.

Também a prática das artes marciais se limita, normalmente, ao interior das academias. Por isso, quando os praticantes, um dia, se vêem num local aberto, em contato com a natureza, estranham, sentem-se desorientados, com a impressão de haver perdido o sentido geral e rotineiro das coisas. No interior de suas academias, sentem-se fortes e confiantes. É nos espaços abertos que lhes vem a consciência de si próprios com relação à natureza e ao próprio espaço. Isso faz com que se vejam pequenos e inseguros.

Realmente, quando se treina ao ar livre, toda a situação se transforma, se comparada aos treinos normais, em ambientes fechados. Por exemplo: no interior de uma sala, o lutador ouve o som forte de sua respiração e o ruído provocado pelos golpes que desfere. Isso lhe infunde uma sensação de conforto, segurança e satisfação. Ao ar livre, parece-lhe que tudo isso desapareceu. Já não consegue ouvir os sons familiares, pelos quais normalmente se guia, pois está mal acostumado, habituado somente a locais fechados e mais ou menos pequenos. Por isso, sente-se perdido. Essa é uma das razões porque, muitas vezes, um lutador que apresenta excelente desempenho dentro de uma academia, nos locais amplos geralmente destinados às demonstrações e às competições, sente-se inseguro, comete erros e já não transmite firmeza e auto-confiança.

Como se vê, o treinamento ao ar livre é indispensável ao bom preparo do atleta. E deve ser realizado não apenas com tempo bom, mas também com vento, chuva e frio, para que se obtenha resultados completos, treinando, assim, não só o físico, mas também o espírito.

          

XII - Treinamento dos Katis  e a importância do Toi Tcha em Kung Fu:

 

 

 

O  treinamento e Katis ou formas são utilizados no Kung Fu como instrumentos do treinamento de mãos e armas contendo técnicas de ataque , defesa ,deslocamentos,bases de perna,desenvolvimento bilateral ,agilidade,rapidez,flexibilidade e força ,correção postural , etc... os movimentos são realizados de forma contínua como uma coreografia , e o nível de dificuldade das técnicas vão crescendo na medida que o aluno progride em seu treinamento no Kung Fu .O fator mais importante é o aluno executar as  rotinas diariamente,pois além da parte física , com o treinamento dos katis,o praticante aumentará seus níveis de persistência,paciência , concentração e auto-superação.

KATY DE BASTÃO : Mestre Li Wing Kay

 

 

 

Em qualquer modalidade de luta, quer oriental, quer ocidental, há que se partir do mais simples para o mais complexo. Em Kung Fu começa-se do básico. Posteriormente, aprende-se movimentos e seqüências de maior grau de dificuldade de execução, até se chegar ao treinamento de Katis e de armas. Entretanto, qualquer posição, por mais simples, tem aplicação e utilização prática, não sendo ensinada apenas por razões de ordem estética. Todos os movimentos aprendidos podem ser usados para defesa pessoal, passando-se, porém, pela luta combinada para se chegar a luta real.

Existem, dentro do Kung Fu, estilos internos e externos. Os estilos internos utilizam, principalmente, os treinamentos "tii sau" e "toi sau" para sentir a força do adversário, "intuir" seu ataque e, deste forma, preparar e efetuar o contra-ataque. Os estilos externos realizam esse treinamento através do Toi Tcha.

Traduzido literalmente, Toi Tcha significa "frente a frente"( onde os movimentos dos Katis são desmembrados e aplicados ). É um aspecto muito importante do treinamento de luta, pois ensina ao praticante a real utilização dos Katis que diariamente executa, e das armas em cujo manejo vem se exercitando. Isso faz com que ele sinta e desenvolva a rapidez, a precisão e a força exigidas por uma luta real. Aguça-lhe, ainda, o sentido de luta, e o ajuda a assimilar as seqüências de ataque e defesa, como se estas, integrassem seus reflexos instintivos, de forma que passará a executá-las natural e espontaneamente. Por isso, o Toi Tcha proporciona aos praticantes eficiência e técnica que lhe facultarão enfrentar serenamente uma luta real. Isso porque não lhes será necessário parar para pensar e planejar ataques e defesas, nem executar movimentos desordenados, sem técnica, lógica ou eficácia. As seqüências que aprenderam e cuja aplicação treinaram através do Toi Tcha lhes ocorrerá automaticamente, na medida em que sua utilização se fizer oportuna.

Como se verificou, por tudo o que foi dito, o Toi Tcha é o primeiro passo para que o praticante de Kung Fu se inicie nas técnicas de luta. É preciso, porém, treinar com seriedade para não chegar a ferir a si próprio ou ao adversário. Aliás, a seriedade e a disciplina são elementos básicos e indispensáveis a quem se dedica à prática das artes marciais. Todo aquele que deixar de encarar o  treinamento sob esse prisma, correrá o risco de obter resultados bem diversos dos pretendidos.

 

      

 

 

 

 

 

Última Atualização ( 21 de outubro de 2006 )
 
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